Recriando Billie Jean em Home Studio - Parte 2 : Baixo
Thiago Vizzi
E se eu te contar que uma das linhas de baixo mais icônicas dos anos 80 não é um baixo? Ou pelo menos não é um único baixo.
O groove aparentemente simples de “Billie Jean” é, na verdade, a combinação de um baixo elétrico somado a três sintetizadores — ARP 2600, Synclavier e Minimoog — criando um timbre único bem difícil de copiar.
Neste post, vamos voltar aos anos 70, época em que essa técnica começou a ser explorada, revisitar a sessão de gravação de Thriller e destrinchar, camada por camada, como essas quatro “peças” se encaixam. No final, mostrarei o passo a passo para você recriar esse timbre no seu home studio e entender como a combinação de um baixo elétrico (ou acústico) com sintetizadores pode adicionar peso, textura e definição, elevando o nível das suas produções – e tudo isso, em grande parte, sem custo, usando ferramentas acessíveis.
1. Quando o baixo "real" encontrou o sintetizador
Usar sintetizadores para fazer linhas de baixo não foi uma ideia inédita para as gravações de Billie Jean. 10 anos antes, Stevie Wonder já estava explorando o Moog IIIc (linha de baixo de Superstition), e timbres de sintetizadores começaram a aparecer no funk e no soul [1]. Marcus Miller mostrou que a combinação baixo elétrico + synths resultava em um som incrível no jazz-funk. Essa técnica não se limitou a um único gênero, aparecendo no Hip-Hop, Música Eletrônica e até Fusion. No final da década de 70 e início dos anos 80, com o aparecimento de teclados polifônicos acessíveis — Yamaha DX7, Roland Juno-106, Prophet-5 etc — essas ferramentas começaram a ser usadas das mais diversas formas, marcando época.
2. As 4 camadas da linha de baixo
Quando Michael Jackson mostrou a demo de Billie Jean (muitas das ideias que saíam da cabeça dele eram registradas ou mostradas cantarolando ou fazendo “beat box”) Quincy não gostou da introdução longa, e julgou a linha de baixo ser muito simples, mas Michael insistiu: "Ela me dá vontade de dançar".
Para além das notas em si, um timbre muito específico e especial foi perseguido para essa gravação: aí entram os sintetizadores, pilotados pelo tecladista Greg Phillinganes e programados pelo mago dos synths, Anthony Marinelli.
Fica a recomendação: Anthony Marinelli tem um canal incrível no YouTube (Anthony Marinelli Music) onde ele compartilha várias dessas histórias e demonstra, com equipamentos de época, como muitos desses timbres foram criados.
Pra criar esse timbre, temos 4 instrumentos diferentes:
Camada 1: Baixo Elétrico (Louis Johnson)
Função: É a camada mais orgânica do groove. Dá o punch inicial, a ressonância natural e a sensação de "baixo real". Sua textura e a forma como as notas decaem naturalmente são vitais. [2]
Foi usado um Yamaha BB (não se tem registro do modelo exato, especula-se ser um protótipo do BB3000) gravado em linha usando uma Direct Box. Um compressor (Bruce Swedien costumava usar o clássico Urei 1176) foi usado para dar sustain e "punch" sem esmagar o ataque. [2]
Camada 2: ARP 2600, o corpo analógico
Essa camada de sintetizador, do ARP 2600, deu o corpo principal à linha de baixo. É um som gordo, percussivo e com aquela pegada analógica. [3]
Camada 3: Synclavier, ataque é ruído digital
Adiciona definição e um "clique" no ataque. Torna o som mais brilhante, com um ataque quase metálico, que se sobrepõe ao som analógico do ARP.
As camadas 2 e 3 são tocadas em conjunto e acionadas por um mesmo teclado, dobrando as notas tocadas pelo baixo elétrico.
Camada 4: Minimoog - O Sub Grave
O Minimoog não toca a linha inteira, mas apenas a nota fundamental de cada acorde. É aquele "TUM" profundo e ressonante que atua como uma âncora, dando um peso ao groove, sem embolar.
A combinação dessas quatro camadas resulta em um som de baixo absolutamente único.
Caso você esteja buscando informações mais detalhadas sobre quais itens você precisa para montar o seu Home Studio, tenho essa outra postagem super detalhada sobre o assunto:
Explicação sobre os 7 itens que você precisa ter em casa para começar a trabalhar nas suas produções:
- Computador
- Programa de Gravação (DAW)
- Interface de Áudio
- Microfones
- Fones de Referência
- Monitores de Áudio
- Controladores MIDI
3. Recriando esse timbre em Home Studio
Com ferramentas atuais – muitas delas virtuais e acessíveis – e um pouco de experimentação, você pode criar suas próprias linhas de baixo multicamadas e dar um salto nas suas produções. É um trabalhão, sim, mas a recompensa é enorme: você não vai somente aprender a recriar o baixo da Billie Jean, mas também treinar seu ouvido e aprender técnicas que poderão ser aplicadas em qualquer produção.
Recriando a camada 1: O baixo elétrico
- Baixo em linha: Gravei um Jazz Bass em linha, usando uma SansAmp como Direct Box, capturando o sinal limpo. Usando a bateria que já foi gravada como guia rítmico, como “metrônomo” (Veja aqui a Parte 1 onde mostro a gravação da bateria em detalhe).
Caso você não tenha um baixo elétrico de verdade, plugins que podem fazer esse papel são: Trilian ou MODO Bass da IK Multimedia (que disponibiliza um baixo grátis, um P-Bass dos anos 60).
Caso você não tenha um pedal ou equipamento para fazer o papael do SansAmp, que será essencial para dar vida a linha do baixo gravado em linha, vou deixar aqui varias recomendações de alternativas e plugins que podem cumprir esse papel:
- Alternativa mais em conta de pedal: Fuhrmann Bass+ Preamp
- Plugins que simulam o SanSamp Bass Driver da Tech 21: BOB Overdrive da TSE Audio, S-Drive da Modern Music Solutions
- Simulações Grátis de Amplificadores: Amplitube CS da IK Multimedia, Bass TR da Audio Assault
- Simulações Pagas de Amplificadores: As varias simulações de Ampeg da Plugin Alliance, Dark Glass Ultra da Neural DSP
Recriando as camadas 2 e 3: ARP 2600 e Synclavier
• ARP 2600 + Synclavier: Usando um controlador MIDI, gravei uma única faixa MIDI que dobra exatamente as mesmas notas do baixo elétrico. Usei 2 plugins VSTi nessa faixa para me dar as 2 camadas desse sintetizador: Arturia ARP 2600 e Arturia Synclavier. Ambos são pagos mas podem ser instalados como versão de avaliação, o que já basta para fazer essa gravação sem precisar gastar.
OBS: Qualquer sintetizador da Arturia oferece um período de uso gratuito de 20 minutos. Para contornar a perda de parâmetros, grave a faixa MIDI, ajuste os controles e renderize essa faixa individualmente ( qualquer DAW te dá essa possibilidade, no caso do Reaper, é o comando “Freeze"). Dessa forma, o plugin é desativado na trilha, mas a sonoridade final é preservada. Você pode aplicar essa ideia em qualquer track sintetizadores da Arturia.
Vou deixar aqui os parâmetros que eu usei para esses 2 plugins:
- Foto 1: Parâmetros do Arturia ARP 2600
- Foto 2: Parâmetros do Arturia Synclavier (Partial 1)
- Foto 3: Parâmetros do Arturia Synclavier (Partial 2)
Deixo aqui também outras alternativas de plugins que simulam o ARP 2600:
• ARP 2600 da KORG
• CA 2600 da Cherry Audio
• Arpee 2600 da Volt Kitchen Group
Alternativas de Plugins para o Synclavier:
• Synclavier V Arturia
• Syncla X (grátis)
• DEXED - que na verdade simula o Yamaha DX7, mas é uma ferrramenta grátis bem interessante
Recriando a camada 4: Minimoog
Mini Moog: Softube Model 72, seguem os parâmetros:
Alternativas de Plugins para o Minimoog:
• Model 72 Softube
• Model Mini - ElektroStudio
• Mini V Arturia
• Minimoog UAD
Pronto, com isso temos as 4 camadas da linha de Baixo. Todos os sons dessas camadas foram mostrados em detalhe no vídeo, vale a pena dar uma escutada.
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4. Por que aprender isso?
Eu sei que dá trabalho, mas a recompensa é grande. Aprender a sobrepor camadas e texturas como essas não só te ajudará a criar timbres únicos e elevar o nível das suas produções, mas também a aplicar essa técnica em qualquer trabalho, não apenas em um cover de Billie Jean.
E o mais importante: o segredo não está em equipamentos caríssimos, mas em entender o papel de cada camada e como encaixá-las.
Pronto para experimentar?
Grave, erre, ajuste e encontre sua própria versão desse baixo multicamadas. Essa é uma jornada de aprendizado valiosa.
Ter contato com as ideias por trás de uma produção desse nível te torna um músico/produtor melhor e te dá a possibilidade de absorver várias ideias e coceitos e aplicar o que for útil à sua própria linguagem.
Está em dúvida sobre qual DAW usar? Tenho aqui uma postagem muito completa sobre esse assunto que pode te ajudar:
Nesse link você vai achar:
- O que é uma DAW e para que ela serve
- A história das DAWs
- As DAWs mais conhecidas
- Como escolher a DAW perfeita para você
5. Quais ou próximos passos?
Até aqui a gente tem a bateria, as percussões (gravadas na parte 1 dessa série) e agora, o baixo da música.
Nas próximas postagens: Sintetizador que faz a harmonia, guitarra, piano elétrico, cordas ... e claro, a voz do Michael Jackson.
Esse aqui foi o segundo post dessa série, e eu espero que você veja a próxima parte, onde eu dou continuidade a esse trabalho.
E se você quiser mais dicas valiosas de como gravar a sua música:
Ele foi escrito com muito carinho e tem dicas valiosas para te ajudar a gravar o seu trabalho com qualidade
Um abraço e boas gravações!
Fontes e Leitura Complementar:
- "Q: The Autobiography of Quincy Jones":
Este livro é uma mina de ouro para entender a visão de produção de Quincy Jones e os bastidores de álbuns icônicos como "Thriller". A história de Michael Jackson insistindo na introdução de "Billie Jean" e a busca incansável pela perfeição de Quincy estão lá.
- Sound On Sound Magazine - "Classic Tracks: Michael Jackson 'Billie Jean'":
A Sound On Sound é uma revista renomada no mundo da produção musical, e seus artigos "Classic Tracks" são verdadeiras aulas. Este em particular detalha a produção e mixagem da faixa, incluindo os equipamentos usados e a filosofia de Bruce Swedien sobre o som do baixo. É uma leitura obrigatória para entender a fundo a engenharia por trás do hit.
www.soundonsound.com/techniques/classic-tracks-michael-jackson-billie-jean - Entrevistas e depoimentos de Bruce Swedien:
Bruce Swedien era um mestre, e suas entrevistas são repletas de detalhes técnicos e filosóficos sobre sua abordagem de mixagem. Ele frequentemente discutia a importância da clareza e da presença. Embora um link único seja difícil, sugiro pesquisar por:
"Bruce Swedien Billie Jean interview" no YouTube
"Bruce Swedien Sound On Sound interview"
"Bruce Swedien Mix Magazine"
Muitos dos vídeos são re-uploads ou trechos, mas a informação é valiosa. Ele também tem livros, como "Make Mine Music", que abordam sua filosofia. - Vintage Synth Explorer (VSE):
Para quem quer se aprofundar nos sintetizadores usados, o VSE é a sua bíblia. Ele oferece detalhes técnicos, históricos e exemplos de áudio de praticamente qualquer sintetizador clássico. Essencial para entender as características de cada máquina (Moog, Prophet-5, Roland Juno-106, Yamaha DX7, Yamaha CS-80, ARP 2600, Synclavier, Roland Jupiter-8).
www.vintagesynth.com - https://www.google.com/search?q=Synthorial.com:
Se você quer aprender sobre síntese do zero, ou aprimorar suas habilidades de programação de timbres, o Synthorial é um recurso fantástico. É um software interativo que ensina como sintetizadores funcionam, essencial para quem busca entender a fundo o "como" criar sons para as camadas de baixo.
Link: www.synthorial.com - MusicRadar.com:
Este portal oferece uma vasta gama de artigos sobre produção musical, incluindo análises de técnicas de mixagem, tutoriais de DAWs e reviews de equipamentos. É um excelente recurso para se manter atualizado e aprender novas abordagens.
www.musicradar.com
