Recriando Billie Jean em Home Studio - Parte 1 : Bateria e Percussão
Thiago Vizzi
Tenho certeza de que você reconhece essa música em apenas três segundos. É impossível ouvir o groove inicial de “Billie Jean” sem lembrar imediatamente de Michael Jackson, daquela batida icônica e do timbre marcante do baixo e sintetizador que se tornaram referência. Nesta série de postagens, meu objetivo é reconstruir em home studio todas as camadas de “Billie Jean”, explorando e aprendendo com cada detalhe dessa produção..
1. Por que recriar “Billie Jean”?
Billie Jean foi uma das tracks do álbum Thriller, que foi gravado entre abril e novembro de 1982 no Westlake Studios, com um orçamento de 2,5 milhões de dólares (em valores de 2025) e 7 meses de trabalho árduo em estúdio. Quincy Jones, Michael Jackson e Bruce Swedien reuniram uma equipe de elite para criar um dos maiores álbuns de todos os tempos. Bruce Swedien mixou a música 91 vezes (a pedido do Michael Jackson) até Quincy enfim escolher a segunda versão 😮
Se você chegou achando que em uma tarde é possível chegar em um resultado parecido, já adianto: a gente aqui vai ter que investir mais tempo e energia que isso, caso contrário vai faltar muita coisa. Mas isso não significa que não valha a pena tentar: a cada tentativa, você vai entender melhor o que está por trás de cada nuance, é um baita oportunidade treinar seu ouvido, evoluir como músico e produtor e conhecer novas técnicas e macetes que podem inclusive ser aplicados nos seus próprios trabalhos.
2. O GROOVE BÁSICO: BATERIA ELETRÔNICA + BATERIA ACÚSTICA
O ponto de partida de “Billie Jean” é, claro, a bateria — ou melhor, a combinação de uma drum machine Linn LM-1 com um kit acústico tocado pelo lendário Leon Chancler.
Drum Machine: Linn LM-1
Serviu como guia rítmico para toda a sessão de bateria acústica
Tem um som bem característico e datado, marcou a época e muitos hits dos anos 80 foram feitos com ela ou com as sua sucessora Linn Drum
Bateria Acústica
Chancler sobrepôs um kit real por cima da LM-1 — fazendo um overdub.
Disciplina e precisão foram essenciais: apesar do groove parecer “básico”, cada batida precisava estar no lugar exato.
Para a microfonação da bateria foram usados, no Bumbo: Sennheiser MD421, na Caixa: Shure SM57 e no Chimbal (hi-hat): RCA77-DX
Caso você esteja buscando informações mais detalhadas sobre microfones, tenho essa outra postagem super detalhada sobre o assunto:
Explicação sobre padrões polares, os 3 principais tipos (dinâmicos, condesadores e de fita), os modelos mais conhecidos e músicos famosos que os usavam e no final um guia de compra que vai ajudar muito você a fazer a sua escolha de microfone: Clique aqui para acessar
Outros detalhes importantes sobre a gravação do kit acústico:
Isolamento entre as peças
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Plataformas de madeira elevaram o kit para reduzir vibrações indesejadas.
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Bumbo preenchido internamente e coberto por uma capa.
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Blocos de concreto dentro do bumbo (algo muito curioso e como citado pelo Bruce Swedien, foi feito como experimento)
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Peça de madeira com espuma entre a caixa e o chimbal, minimizando vazamento entre microfones.
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Compressão mínima
Swedien preferia transientes muito vivos, então não aplicou quase nada de compressão no kit acústico, além da compressão natural dos gravadores de fita
3. COMO RECRIAR ESSES TIMBRES (GRÁTIS)
Meu plano é usar recursos gratuitos para chegar o mais perto possível da música original, usando pacotes de samples que apesar de serem gratuitos, têm muita qualidade:
Drum Machine Linn LM-1:
Baixe o pacote de samples gratuito da Samples From Mars (link aqui). São arquivos de áudio com o som autêntico da Linn LM-1 — essenciais para ter o timbre original.
Samples do kit acústico:
No Reverb.com, existem coleções de samples grátis de diversos kits. Busque por “Bright 80s Drums in the style of Billie Jean", (link aqui) que é um pacote que buscou replicar uma gravação de bateria usando os mesmos detalhes e técnicas do Bruce Swedien
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4. Como usar os Samples na sua DAW
Eu uso o Reaper, mas o processo vale para qualquer DAW: você basicamente precisa usar um programa que associe os arquivos dos samples que foram sugeridos aqui em cima a determinadas teclas do seu controlador midi (ou a pads ou peças da sua bateria eletrônica etc). Ou seja, um plugin sampler carregado na sua DAW
Eu optei por usar o ReaSamplematic 5000 que já é nativo e vem instalado com o Reaper, e é gratuito
Crie uma nova track, selecione como input MIDI o controlador MIDI que você irá usar, arme a track para gravação (clique para a bolinha do botão REC ficar vermelho brilhante) e adicione a ela o plugin Reasamplmatic5000.
Nesse plugin podemos associar uma faixa de notas a um arquivo de áudio (sample). No nosso caso, como quero associar apenas uma tecla do controlador a um arquivo (bumbo.wav por exemplo), colocarei a "nota inicial" igual a "nota final" como o Dó 2 (C2)
Exemplo, para o bumbo:
Note Start = 36 (C2)
Note End = 36 (C2)
Depois clicando no botão "Browse", carregamos o arquivo do bumbo que baixamos da Reverb.com
Pronto, agora tocando a tecla (ou pad) Dó2 do seu controlador, essa track emitirá o som do arquivo de bumbo que você selecionou
Como o objetivo é ter dois sons associados a cada tecla (bumbo acústico + bumbo da Drum Machine), repetiremos o processo na mesma track, adicionando outra instância desse mesmo plugin e fazendo novamente o mesmo processo, mas dessa vez carregando o arquivo do bumbo da Drum Machine LM-1 da Samples from Mars.
Com o Bumbo pronto, abriremos mais 2 tracks: Caixa e Chimbal, e repetiremos o processo onde eu usei as seguintes teclas:
Nota 36 (Dó2): bumbo LM-1 + bumbo acústico
Nota 37 (Dó#2): caixa LM-1 + caixa acústica
Nota 38 (Ré2): chimbal LM-1 + chimbal acústico
Caso você tenha ficado com alguma dúvida sobre esse processo de mapeamento de notas, no vídeo eu faço esse passo a passo, vou deixar o link novamente aqui
Está em dúvida sobre qual DAW usar? Tenho aqui uma postagem muito completa sobre esse assunto que pode te ajudar:
Nesse link você vai achar:
- O que é uma DAW e para que ela serve
- A história das DAWs
- As DAWs mais conhecidas
- Como escolher a DAW perfeita para você
5. Como eu fiz essa gravação?
Eu montei um kit de bateria, uma bateria híbrida, que nada mais é que um kit de bateria acústica bem simples, com triggers (sensores) instalados em cada uma das peças e que foram conectados a um módulo de bateria eletrônica (Roland TD4). Com isso, eu tenho um kit que funciona como uma bateria eletrônica, funciona como um controlador MIDI, o que é muito útil quando eu preciso usar timbres muito específicos.
Esse kit une o melhor dos dois mundos: uma sensação interessante de tocar, é divertido, parece uma bateria acústica mesmo, com os sensores me ajudando a triggar os samples que eu coloco na minha DAW. Pra cada uma dessas peças, eu já associei os dois sons ao mesmo tempo: o som da drum machine LM-1 e o som do kit acústico da Reverb que eu sugeri.
Lembrando que outras formas de executar isso aqui também são super válidas. Esse foi o jeito que eu fiz, mas você pode fazer de outro jeito. Por exemplo, você pode usar pads pra tentar dar uma de finger drummer, caso você tenha essa vibe, ou pode tocar numa bateria eletrônica comum, caso você tenha. Ou então, claro, sempre bem-vinda uma bateria acústica de verdade!
6. Adicionando Percussão, Tons e Pratos
Agora que a gente já tem o groove básico da música pronto, a gente vai falar sobre alguns detalhes que vão aparecer conforme a música evolui. A gente tem que adicionar ainda a cabaça, as palmas (claps), tons e pratos, que vão aparecer em alguns momentos específicos da música.
Os sons de cabaza foram adicionados usando também uma Lm-1, sendo que esse som também está contido no mesmo pacote de samples da Samples from Mars que eu sugeri agora há pouco
As palmas foram adicionadas usando uma roland TR-808, e você também encontra esse pacote de samples grátis no site da samples from Mars
As palmas foram adicionadas usando uma roland TR-808, e você também encontra esse pacote de samples grátis no site da samples from Mars
Um detalhe legal é que a percussão do álbum é creditada ao Paulinho da Costa, um brasileiro que fez vários trabalhos com o Quincy Jones.
7. Valorize o processo
O som gerado em uma gravação é resultado de muitos fatores, que são inerentes ao momento: o kit de bateria que foi usado, feeling do baterista naquele dia, a técnica usada, o microfone, o posicionamento, os diversos equipamentos que fazem parte da cadeia de áudio .... Ou seja, são infinitos fatores que vão compor o resultado final.
Tentar replicar isso de forma idêntica é quase impossível enem os próprios músicos e produtores que participaram da gravação original conseguiriam fazer isso 50 anos depois.
Então tenha em mente que o mais importante aqui é o que você vai absorver ao longo do processo
Ter contato com as ideias por trás de uma produção desse nível te torna um músico/produtor melhor e te dá a possibilidade de absorver várias ideias e coceitos e aplicar o que for útil à sua própria linguagem.
8. Quais são os próximos passos?
Até aqui a gente tem a bateria e as percussões da música
O ponto é que a gente só tá começando! Ainda falta: baixo, várias camadas de sintetizadores, guitarra, piano elétrico e, claro, a voz do Michael Jackson. Ou seja, não vai ser nada fácil!
Esse aqui foi o primeiro post dessa série, e eu espero que você veja a próxima parte, onde eu dou continuidade a esse trabalho e falo sobre os vários outros instrumentos que compõem essa música.
E se você quiser mais dicas valiosas de como gravar a sua música:
Ele foi escrito com muito carinho e tem dicas valiosas para te ajudar a gravar o seu trabalho com qualidade
Um abraço e boas gravações!
